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Como criar tipos: notas da edição

por Rafael Dietzsch   |    em 05 Fevereiro 2015   |    artigos     

O projeto da edição e tradução do livro Como criar tipos iniciou-se em outubro de 2013, após contato inicial com Elena Veguillas, co-editora da versão original do texto em castelhano. Nos interessou a ideia de inaugurar a editora com um guia básico sobre design de tipos, publicação voltada principalmente para estudantes de design que querem aprender a projetar tipos, mas que normalmente têm que recorrer a mais de uma fonte de referência para conseguir visualizar o quadro geral dessa atividade. Assim, iniciamos o projeto no primeiro semestre de 2014.

A edição original, conforme anuncia o prefácio dos editores espanhóis, destaca “a necessidade de publicar um livro sobre design de tipos em castelhano — como idioma original, sem recorrer a traduções de outras línguas…”. Nesse sentido, houve um empenho na utilização de terminologia totalmente em espanhol (salvo duas ou três exceções, que foram mantidas em inglês), além de manter as diferenças de sotaque e vocabulário dos autores (um argentino, um mexicano e uma espanhola), intencionalmente preservando a “diversidade de vozes” sobre o mesmo tema, em um mesmo idioma. Infelizmente, essas sutilezas se perderiam naturalmente no processo de tradução do castelhano, e de suas variantes regionais, para o português do Brasil. Por isso, decidimos tomar partido da homogeneização decorrente do processo de tradução. Ou seja, decidimos uniformizar o texto, em particular, no tocante ao uso da terminologia tipográfica.

Se por um lado isso cria um distanciamento do original, por outro o torna mais simples e palatável para os leitores, em especial, para os estudantes não afeitos aos jargões da área. Por meio de intenso diálogo envolvendo os autores, nós [os editores] e a tradutora, o texto passou, depois de traduzido, por várias etapas de revisão e edição. Além disso, para a tradução de alguns termos e conceitos, consultamos a opinião de alguns colegas e colaboradores externos, todos especialistas atuantes no Brasil ou em Portugal.

Durante esse processo, foi necessário estabelecer um ponto em comum para a discussão entre os falantes de português e espanhol. Assim, decidimos utilizar a terminologia e nomenclatura do inglês como referência, por se tratar de um idioma no qual há mais publicações e cujo uso dos termos está mais consolidado. Diante disso, nos deparamos com algumas questões.

A primeira delas se refere à uniformização dos termos em português, tendo em vista as diferentes terminologias adotadas no texto em espanhol. Exemplo disso é a palavra serifa, que aparece no original de três maneiras: patín, remate e serifa. A segunda questão se refere ao uso de anglicismos: decidimos manter em inglês os termos mais utilizados na prática profissional no Brasil, pois preferimos evitar o uso de termos que, embora existam, não são comumente utilizados.

Um dos termos que mais chamou nossa atenção durante a revisão técnica, estava no próprio título original. A polissemia do termo tipografia obscurece as diferenças entre técnica de impressão, composição tipográfica, campo de estudos ou ainda tipos para impressão. Isso não significa que antes não houvesse essas diferenças, ou ainda, que as pessoas não fizessem distinções contextuais entre os possíveis significados. No entanto, a incorporação gradual de outras acepções, como a criação de fontes digitais, ampliou o uso do termo de tal maneira que, em muitos casos, seu emprego dificulta a compreensão.

A crescente especialização em qualquer atividade é, grosso modo, acompanhada por uma ressignificação e um redimensionamento da terminologia específica. Portanto, o caso do design não é diferente dos demais. As discussões acadêmicas que temos acompanhado em congressos da área não deixam dúvidas sobre a importância do assunto em questão.

Nesse sentido, é interessante notar que entre designers de tipos, tipógrafos, pesquisadores e educadores brasileiros existem diferentes pontos de vista em relação à tradução da terminologia tipográfica para o português; muitos são a favor de uma nomenclatura própria, como fazem os franceses e hispânicos. A própria tradutora deste livro, Priscila Farias, tem algumas opiniões que divergem das nossas, mas foi extremamente compreensiva ao respeitar nosso ponto de vista (a propósito, veja artigo da pesquisadora sobre o assunto).



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